<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"><channel><title>Radar Áurea</title><link>https://ogrupoaurea.com/radar/</link><atom:link href="https://ogrupoaurea.com/radar/feed.xml" rel="self" type="application/rss+xml"/><description>Inteligência artificial e tecnologia, lidas do ponto de vista da operação das empresas. Brasil e Portugal.</description><language>pt-BR</language><lastBuildDate>Wed, 14 Oct 2026 09:00:00 -0300</lastBuildDate><item><title>OAB-SP leva a Enter à Justiça: onde acaba a ferramenta e começa a “advocacia sem advogado”</title><link>https://ogrupoaurea.com/radar/oab-sp-enter-ia-advocacia</link><guid isPermaLink="true">https://ogrupoaurea.com/radar/oab-sp-enter-ia-advocacia</guid><pubDate>Wed, 14 Oct 2026 09:00:00 -0300</pubDate><category>Mercado jurídico</category><description>A seccional paulista ajuizou em 7 de outubro uma ação civil pública contra a startup mais valiosa de IA jurídica da América Latina. Ainda não há decisão, mas a pergunta vale para qualquer escritório que use IA: quem decide em cada etapa?</description><content:encoded><![CDATA[<p class="rd-lead">Em 7 de outubro de 2026, a seção de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil entrou na Justiça contra a Enter, uma startup de inteligência artificial para o jurídico. A OAB-SP diz que a plataforma lê processos, sugere estratégias e redige peças, tarefas que considera privativas da advocacia e que exigem a supervisão efetiva de um advogado. Chama o que vê de “advocacia sem advogado”. A Enter nega e diz que a ação parte de informações equivocadas.</p>

<h2>O que aconteceu</h2>
<p>A ação é uma ação civil pública, protocolada em 7 de outubro, segundo o Migalhas (o texto cita o processo nº 5031169-20.2026.4.03.6100). A CNN Brasil descreve a Enter como a startup de IA jurídica mais valiosa da América Latina, com avaliação acima de US$ 1 bilhão, que vende para departamentos jurídicos de grandes empresas, e não para escritórios.</p>
<p>A OAB-SP afirma que não é contra a IA no Direito. O que contesta, segundo as reportagens, é a advocacia sem advogados: um sistema de grande escala e muita automação em que os profissionais entram depois de a máquina já ter feito a primeira versão de cada etapa.</p>

<h2>O que a OAB-SP pede</h2>
<p>Estes são pedidos de uma das partes, não uma decisão. Em caráter liminar, a seccional pede a preservação das provas sobre como o sistema funciona, a suspensão da publicidade que apresente o produto como substituto de advogados e a restrição de novos contratos para as funcionalidades questionadas enquanto não houver identificação do profissional responsável e registro das revisões.</p>
<p>No mérito, pede supervisão humana efetiva, verificável e auditável em todas as etapas; registro das estratégias adotadas e das alterações feitas nos documentos; tempo suficiente para o profissional revisar antes de aprovar; o direito de o advogado rejeitar o conteúdo gerado; auditoria independente; a proibição de oferecer o serviço a quem não é inscrito na OAB; e R$ 1 milhão por danos morais coletivos, ou o valor que o juízo fixar.</p>

<h2>O que a Enter diz</h2>
<p>Segundo a empresa, o diálogo com o Conselho Federal da OAB dura meses e a seccional paulista nunca a procurou antes da ação. Ela afirma que a condução dos casos, incluindo revisão, assinatura e protocolo das peças, fica integralmente a cargo de advogados habilitados contratados por seus clientes, e que várias das medidas pedidas já fazem parte da operação. Declara ainda ter certificação SOC 2, conformidade com a LGPD, dados de clientes segregados e sem uso para treinar modelos. São declarações da empresa, que a reportagem não verificou de forma independente.</p>

<h2>O que ainda não se sabe</h2>
<p>Nenhuma das reportagens consultadas registra decisão sobre o pedido liminar. O mérito está em aberto. Há também relatos que divergem sobre o alcance dos pedidos, por exemplo se a ação busca impedir a venda a grandes empresas ou apenas restringir contratos para as funcionalidades questionadas. Seguimos a descrição do Migalhas, que lista os pedidos um a um. Quem quiser a versão exata deve consultar a petição.</p>

<h2>O pano de fundo: a advocacia já usa IA toda semana</h2>
<ul>
<li><strong>25 de março de 2026.</strong> Um relatório do Jusbrasil com seis seccionais da OAB, a Trybe e o ITS Rio, com mais de 1.800 respondentes voluntários, apontou que 77% dos profissionais do Direito usam IA generativa ao menos uma vez por semana. A elaboração de peças processuais lidera os usos (76%).</li>
<li><strong>16 de abril de 2026.</strong> A 1ª Turma do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-SP aprovou, por unanimidade, um parecer que veda a confiança exclusiva nos resultados automatizados para elaborar argumentos e exige análise humana antes de qualquer peça ser protocolada.</li>
<li><strong>15 de junho de 2026.</strong> O Conselho Federal lançou o Plano Nacional de Integração da IA na Advocacia, com cinco eixos (governança, capacitação, modernização dos serviços da OAB, defesa das prerrogativas e inclusão tecnológica). O texto o descreve como estratégia e futura política nacional, sem apontar força de norma.</li>
</ul>
<p>A advocacia, portanto, já usa IA todos os dias. A pergunta que a ação coloca é outra: em cada etapa, quem decide, e isso consegue ser demonstrado depois?</p>

<h2>Nossa leitura: dois desenhos para o mesmo problema</h2>
<aside class="rd-int">
<strong>Declaração de interesse.</strong> O Grupo Áurea desenvolve a Lexa Office, assistente jurídica de IA para advogados e escritórios. Não somos parte do processo, não avaliamos o mérito e não comparamos qualidade entre produtos. Comparamos apenas o desenho, com o que as reportagens descrevem e o que a Lexa publica sobre si.
</aside>
<table class="rd-cmp">
<thead><tr><th scope="col"></th><th scope="col">Lexa Office</th><th scope="col">Enter, segundo as reportagens</th></tr></thead>
<tbody>
<tr><th scope="row">Para quem é</th><td>Advogados e escritórios, que a comandam pelo Telegram.</td><td>Departamentos jurídicos de grandes empresas, e não escritórios (CNN Brasil).</td></tr>
<tr><th scope="row">Quem dá o primeiro passo</th><td>O advogado pede. A Lexa executa e devolve, para ele rever.</td><td>Os agentes produzem a primeira versão de cada etapa antes de o advogado intervir (CNN Brasil). A Enter diz que advogados conduzem, revisam, assinam e protocolam.</td></tr>
<tr><th scope="row">Quem assina e protocola</th><td>O advogado. A Lexa não envia nada sem o OK dele.</td><td>Advogados habilitados contratados pelos clientes, segundo a empresa. Que isso seja verificável é o que a OAB-SP pede.</td></tr>
</tbody>
</table>
<p>Na Lexa, o advogado é o cliente, o ponto de partida e o ponto de chegada. Quem escreve a peça é ele. A Lexa a ataca, confere as citações no texto oficial e organiza o resto do dia, e quando não conferiu uma coisa, diz que não conferiu. O desenho ajuda a responder à pergunta da OAB-SP, mas não faz da Lexa uma ferramenta “aprovada pela OAB”: nenhuma é, só por ser bem desenhada.</p>
<p>A Lexa também tem limites que declaramos em nosso próprio FAQ. O Auditor de Conformidade é beta, e a base normativa ainda não cobre normas estaduais, convenções coletivas e acórdãos. E um ponto que a ação destaca merece atenção de todo o mercado, nós incluídos: poder mostrar depois, de forma registrada, o que o advogado revisou.</p>

<h2>Quatro perguntas para qualquer ferramenta de IA no escritório</h2>
<ol>
<li><strong>Quem decide em cada etapa</strong>, e isso fica registrado de forma que se possa mostrar depois?</li>
<li><strong>O advogado consegue recusar ou refazer</strong> o que a IA produziu, sem fricção?</li>
<li><strong>Cada citação</strong> (norma, súmula, acórdão) é conferida na fonte oficial, e a ferramenta avisa quando não conferiu?</li>
<li><strong>Para onde vão os documentos</strong> e os dados dos clientes, e eles são usados para treinar modelos?</li>
</ol>
<p>São perguntas nossas, inspiradas no que a OAB-SP pede e nas diretrizes do TED. Não são aconselhamento jurídico e não substituem a leitura do Código de Ética e dos pareceres da sua seccional.</p>]]></content:encoded></item><item><title>Quase todo pequeno negócio conhece a IA. Poucos a usam todos os dias</title><link>https://ogrupoaurea.com/radar/pequenos-negocios-conhecem-ia-poucos-usam</link><guid isPermaLink="true">https://ogrupoaurea.com/radar/pequenos-negocios-conhecem-ia-poucos-usam</guid><pubDate>Wed, 14 Oct 2026 09:00:00 -0300</pubDate><category>Dados</category><description>A pesquisa do Sebrae e da FGV IBRE com cerca de 5 mil empresas mostra uma distância que explica por que tanta IA não vira resultado: conhecer a ferramenta não é o mesmo que ter IA trabalhando dentro da operação.</description><content:encoded><![CDATA[<p class="rd-lead">Quase todas as empresas brasileiras já ouviram falar de IA generativa. Quando a pergunta é se ela trabalha dentro da operação, o número cai. A pesquisa Uso de IA nos Negócios, do Sebrae e da FGV IBRE, feita em dezembro de 2025 com cerca de 5 mil empresas de todos os portes e divulgada em janeiro, mostra a distância com clareza.</p>

<h2>O que a pesquisa mostra</h2>
<ul>
<li><strong>Conhecimento:</strong> 99% das médias e grandes empresas, 96% das micro e pequenas e 87% dos microempreendedores individuais (MEI) dizem estar familiarizados com ferramentas como ChatGPT ou Gemini.</li>
<li><strong>Uso frequente:</strong> 35% nas médias e grandes, 15% nas micro e pequenas e 18% entre os MEI.</li>
<li><strong>Uso nas atividades do negócio:</strong> 63%, 46% e 42%, respectivamente.</li>
<li><strong>Para quê:</strong> nas micro e pequenas e entre os MEI, o uso se concentra em marketing e divulgação (59% e 74%). Nas médias e grandes, o primeiro lugar é a análise de dados (67%).</li>
<li><strong>Dificuldade:</strong> nas micro e pequenas, a resposta mais comum é “nenhuma dificuldade” (30%). Entre os MEI, a principal é não saber como aplicar a IA ao negócio (23%). Nas médias e grandes, é a segurança e a privacidade dos dados (35%).</li>
</ul>

<h2>O que isso quer dizer</h2>
<p>Quem usa IA para escrever uma legenda ou um e-mail não encontra dificuldade, porque a ferramenta funciona sozinha, fora do processo da empresa. É o uso mais fácil e o primeiro a aparecer. Por isso “nenhuma dificuldade” lidera entre as pequenas, enquanto a análise de dados, que exige ligar a IA a informação organizada, aparece só em terceiro lugar (30%).</p>
<p>O trabalho que pesa no dia a dia é outro: responder o cliente fora de horas, confirmar uma agenda, conferir documentos, atualizar um sistema com dados de outro. Para a IA fazer isso, ela precisa estar ligada aos sistemas, ter regras claras sobre o que pode executar e saber quando pedir aprovação a uma pessoa. É aí que aparece a dificuldade real, e é aí que a maioria dos investimentos se perde.</p>

<h2>O mesmo padrão, em outros números</h2>
<p>Fora do Brasil o desenho se repete. A McKinsey (State of AI 2025) aponta que 88% das organizações já usam IA em ao menos uma função, mas só 39% veem algum impacto no resultado, na maioria dos casos abaixo de 5%. O BCG (Widening AI Value Gap, 2025) estima que apenas 5% das empresas geram valor em escala. Em Portugal, o INE registou que 11,5% das empresas usam IA, e 9,4% entre as pequenas, segundo o ECO.</p>
<p>Brasil e Portugal partem de pontos diferentes (conhecimento alto de um lado, uso baixo do outro), mas chegam ao mesmo problema: a distância entre adotar uma ferramenta e ter um agente trabalhando dentro da operação.</p>

<h2>O que fazer</h2>
<ol>
<li><strong>Liste o trabalho repetitivo</strong> da operação, não as ferramentas. Onde alguém copia dados de um sistema para outro? Onde um cliente espera por uma resposta?</li>
<li><strong>Escreva a regra</strong> que decide cada caso. Se ninguém consegue explicar como a decisão é tomada, ainda não é hora de automatizar.</li>
<li><strong>Defina o que fica com uma pessoa.</strong> Ações reversíveis e autorizadas, o agente executa. Ações sensíveis, pede aprovação. Risco, conflito ou ambiguidade, escala.</li>
</ol>
<p>Quem quiser um ponto de partida pode fazer o nosso Índice de Prontidão Operacional: 18 afirmações, seis dimensões, quatro minutos.</p>]]></content:encoded></item><item><title>Brasil ainda sem lei de IA, Europa já exige avisar que é IA: o que vale nos dois lados do Atlântico</title><link>https://ogrupoaurea.com/radar/brasil-sem-lei-ia-europa-exige-avisar</link><guid isPermaLink="true">https://ogrupoaurea.com/radar/brasil-sem-lei-ia-europa-exige-avisar</guid><pubDate>Wed, 14 Oct 2026 09:00:00 -0300</pubDate><category>Regulação</category><description>O marco legal brasileiro segue parado na Câmara. Na União Europeia, que inclui Portugal, o dever de informar que a pessoa fala com uma IA já vale desde agosto. Quem atende clientes nos dois mercados pode desenhar pelo critério mais rígido.</description><content:encoded><![CDATA[<p class="rd-lead">Quem implanta um agente de IA para atender clientes hoje opera em dois cenários. No Brasil, ainda não existe uma lei específica de IA em vigor. Na União Europeia, e portanto em Portugal, já existe um regulamento, e uma parte dele passou a valer em agosto. Este texto resume o estado de cada lado em 14 de outubro de 2026. Não é aconselhamento jurídico.</p>

<h2>Brasil: o marco legal ainda não é lei</h2>
<p>O PL 2338/2023 foi aprovado no Senado em 10 de dezembro de 2024 e segue na Câmara dos Deputados. Na página de tramitação, o projeto aparece como aguardando parecer do relator na comissão especial. O relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), foi designado em 20 de maio de 2025 e nenhum parecer foi apresentado até agora. As últimas movimentações são apensações de outros projetos, a mais recente em 2 de setembro de 2026. Relatos de acompanhamento legislativo indicam que a votação deve ficar para depois das eleições, mas a Câmara não divulga data.</p>
<p>Isso não significa vazio. A LGPD já vale, e o seu art. 20 dá ao titular o direito de pedir a revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado de dados pessoais que afetem os seus interesses. Valem também o Código de Defesa do Consumidor e as regras de cada setor. Um agente que atende cliente já está dentro dessas regras.</p>

<h2>União Europeia e Portugal: o que adiou e o que não adiou</h2>
<p>O Regulamento (UE) 2026/1744, o chamado Omnibus digital de IA, foi publicado no Jornal Oficial em 24 de julho de 2026 e entrou em vigor em 27 de julho. Ele adiou as obrigações dos sistemas de alto risco do Anexo III (emprego, educação, avaliação de crédito, entre outros) de 2 de agosto de 2026 para <strong>2 de dezembro de 2027</strong>, e as dos sistemas embutidos em produtos regulados (Anexo I) para 2 de agosto de 2028.</p>
<p>O que <strong>não</strong> foi adiado: desde <strong>2 de agosto de 2026</strong> valem os deveres de transparência, entre eles informar a pessoa de que ela está interagindo com um sistema de IA e rotular deepfakes e certos conteúdos gerados. Há uma carência de quatro meses, até 2 de dezembro de 2026, apenas para a marcação legível por máquina de sistemas generativos que já estavam no mercado. Nessa mesma data entram em vigor duas novas proibições, sobre imagens íntimas sintéticas e material de abuso infantil gerado por IA.</p>
<p>Em Portugal, o Governo escolheu a ANACOM como autoridade de fiscalização em 19 de setembro de 2025, em coordenação com autoridades setoriais. As fontes divergem sobre se o ato formal de designação já está concluído, por isso vale conferir no Diário da República.</p>

<h2>O que muda para quem atende clientes</h2>
<p>As regras são diferentes, mas o desenho que atende às duas é o mesmo, e é simples de dizer:</p>
<ol>
<li><strong>Avise que é IA.</strong> Na UE é dever legal desde agosto. No Brasil, é transparência que a LGPD já pede e que o cliente valoriza.</li>
<li><strong>Mantenha uma pessoa na decisão que importa.</strong> O agente executa o que é reversível e autorizado, pede aprovação no que é sensível e escala o que é arriscado.</li>
<li><strong>Registre.</strong> Quem decidiu, quando e com base em quê. Isso serve ao cliente que pede revisão, à autoridade e à sua própria equipe.</li>
</ol>
<p>Quem atende nos dois países pode desenhar pelo critério mais rígido e depender menos do calendário de cada legislador. Para um caso concreto, consulte um advogado.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>
